
BATIDAS DA RESISTÊNCIA:
O reggae em Maceió
Eliana Farias
Banda Alma Rasta no Centro Cultural Arte Pajuçara / Foto: Alisson Frazão
Nas areias douradas de Maceió, o reggae não é apenas uma música, é um estilo de vida, uma voz de resistência e esperança. Essa relação profunda entre o reggae e Maceió tem suas raízes fincadas nas décadas de 1970 e 1980, quando as ondas sonoras da Jamaica encontraram eco nas praias de Alagoas. Inspirados por ícones como Bob Marley e Jimmy Cliff, os músicos locais começaram a tecer os ritmos pulsantes do reggae em suas próprias composições, alimentando assim o surgimento de uma cena vibrante e autêntica do gênero musical em Maceió.
Apesar do fervor e paixão dos artistas e fãs, a música reggae e a cultura alagoana enfrentam uma série de obstáculos. A falta de espaços adequados para apresentações ao vivo, a escassez de investimento em infraestrutura cultural e a ausência de apoio institucional são apenas algumas das dificuldades que permeiam a cena musical do reggae em Maceió e em todo o estado de Alagoas. Além disso, questões sociais como o preconceito e a marginalização dos artistas locais representam desafios significativos para a comunidade.
Por isso, para manter o gênero vivo, há uma união de atrações musicais de reggae com exposições, que é mais do que apenas entretenimento; é uma manifestação cultural que busca transcender fronteiras e conectar corações e mentes. Ao combinar os sons envolventes com expressões artísticas visuais, esses eventos procuram não apenas celebrar a herança cultural do gênero em Alagoas, mas também estimular a reflexão e promover a conscientização sobre questões sociais relevantes para a comunidade. E isto está expresso nas letras das músicas de artistas como Alma Rasta, Vibrações e Osvaldo Silva.
Essa vibração foi sentida no Encontro Cultural Reggae de Alagoas, no Cine Arte Pajuçara. Para passar a mensagem da música jamaicana, o evento contou com músicos, artesãos e, principalmente, com a lembrança do pai do reggae, através do filme “Bob Marley: One Love”. Além de envolver os participantes, o encontro buscou mostrar que o reggae vai muito além de uma cultura musical e de uma expressão artística, é um tipo de religião que luta pela resistência e combate de preconceitos. O espetáculo teve a ajuda de entusiastas do reggae, bem como DJs e artistas locais. Filipe Mendes (Alma Rasta), Ítalo John (Banda Mensageiros), Ed (Nação Palmares) e Felipe Oliveira (D'dreads) colaboraram com o encontro.
Bob Marley: One Love | Teaser Trailer Oficial Legendado
Resistência
Eventos como este buscam apresentar a música jamaicana como uma ferramenta de transformação social, cultural e também econômica. O Cine Arte Pajuçara tem se colocado na cena alagoana como um ponto de unidade de diferentes guetos, proporcionando momentos de entretenimento musical e audiovisual - unindo cinema e música -, e ajudando os artesãos na comercialização de sua arte. Gera, assim, emprego e renda dentro da economia criativa.
De acordo com Marcos Sampaio, o Marcão, representante do Arte Pajuçara, estas iniciativas conseguem unir o entretenimento e o fomento da cultura. No caso do evento ocorrido, ele entende que “a junção: música, exposições e cinema representa uma oportunidade única de promover e difundir a riqueza da cultura local, especialmente no que diz respeito à música reggae".
Ainda segundo Marcão, à medida que essas ações ganham impulso, "é importante reconhecer o papel fundamental que espaços culturais e eventos colaborativos desempenham no fortalecimento da cena musical local e na construção de uma comunidade culturalmente vibrante e inclusiva”.
A respeito do reggae, Marcão teve a ideia de exibir o filme sobre Bob Marley para promover a história do gênero que tem o artista como um dos grandes expoentes. “A exposição do filme teve o objetivo de inspirar as novas gerações e ampliar a apreciação do reggae, bem como desmistificar conceitos e percepções errôneas sobre o gênero e seus praticantes. Com o apoio da comunidade e a crescente conscientização, espera-se que o período atual do reggae em Maceió seja visto de forma ainda mais positiva”, disse.
Vibração rasta
Entre os músicos que vêm atuando no estado para enviar a mensagem do reggae para o público, Filipe Mendes, da banda Alma Rasta, trabalha a partir do Coletivo Cultura Reggae. Enquanto membro do núcleo técnico, contribui na cena apoiando a realização de eventos como o Encontro Cultura Reggae Alagoas. Porém, mesmo diante da iniciativa, Filipe Mendes deixou claro que a barreira da falta de apoio ainda permanece intransponível. “Apesar do potencial cultural abundante em Alagoas, as dificuldades enfrentadas pela cena musical local são em grande parte atribuídas à falta de incentivo e divulgação por parte das autoridades culturais. A falta de apoio pode ser um obstáculo significativo para os artistas locais que buscam alcançar um público mais amplo e compartilhar sua música com o mundo", destacou.
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Filipe Mendes se apresentando com a banda Alma Rasta no Cine Arte Pajuçara / Foto: Alisson Frazão
O artista acredita que muitos conceitos e percepções errôneas sobre o segmento e as pessoas que fazem a música reggae podem ser quebrados. Apesar das dificuldades existentes, o Coletivo trabalha no sentido de deixar uma esperança no ar. "A expectativa é que esse 2º Encontro Cultura Reggae Alagoas seja um marco em nosso estado. Agora, as expectativas são as melhores e a gente tem que aproveitar esse espaço que é o Cine Arte Pajuçara, que tanto valoriza e fomenta a música, além da cultura produzida aqui na nossa cidade e estado", disse.
Enraizado nas areias e nas almas de Maceió, o reggae alagoano continua a ser uma fonte inesgotável de inspiração e resistência. Apesar dos desafios enfrentados, a união de atrações musicais de reggae com exposições representa uma poderosa afirmação de identidade e uma expressão vibrante da riqueza cultural de Alagoas.
Confira o trabalho de alguns artistas alagoanos do segmento reggae:





