
O que a pintura em murais representa para a democratização da cultura
Levando a arte para fora do museu: Os murais da cidade
Joyce Nobre em sua intervenção urbana: murais da artista são encontrados nos bairros de Maceió (Foto: divulgação)
Cecília Calado
Se a arte é para todos, por que não explorá-la por toda parte? É esse questionamento que vem à tona quando analisamos as pinturas nos muros da cidade de Maceió, que são altamente concentradas em sua parte baixa.
Partindo desse ponto de vista, os muralistas Joyce Nobre e Pedro Lucena abordam a importância de utilizar os muros da cidade para democratização do acesso às artes visuais, sobretudo pensando nos muros da periferia, onde concentra-se a população de baixa renda.
A arte como um ato político
“É triste a cidade cujos muros não falam”. É assim que Pedro Lucena, um dos artistas responsáveis por embelezar a cidade, descreve a importância do seu trabalho.
Temas como o universo infantil, pássaros e mulheres são recorrentes na sua missão de levar a cultura para fora dos museus.
No entanto, por trás da energia cativante presente nas pinturas, existe uma forte função social. Segundo ele, democratizar o acesso à arte é um dos seus pilares como profissional.“Tirar as obras de arte das galerias ou museus e estampá-las nas ruas é um ato democrático gigantesco, é assim que as pessoas têm suas primeiras aproximações com as artes”, afirma emocionado.
Além disso, o muralista considera que todo e qualquer tipo de arte deve ter uma função social, ou seja, um motivo para existir. “Os artistas que não pensam nessa questão, têm uma arte esvaziada. Apesar de que toda arte é política, porque quando o artista se nega a fazer um trabalho de cunho social, o simples fato de não querer, já revela alguma coisa”, acrescenta ele.
Embora a pintura em murais esteja virando tendência em Maceió, seja pelos investimentos da prefeitura ou de forma privada, Pedro menciona que ainda sente falta de representações mais diretas e questionadoras. “Falta aqui uma arte confrontadora, com mensagens sociais fortes, onde os muralistas colocam mensagens mais contundentes. Isso pode ser explorado nos espaços das laterais dos prédios, já que não se vê muitas laterais pintadas aqui”, sugere o artista.

Pedro Lucena tem participado de editais de ocupação da cidade a partir dos murais (Foto: divulgação)
“Galeria a céu aberto”
Joyce Nobre é mais uma muralista que tem se empenhado para transformar o olhar de quem circula pela cidade de Maceió. Algumas de suas obras famosas são a "Dona Marisqueira" (2022), no viaduto João Lira; a "Beleza é Negra" (2022), no muro da Associação de Moradores de Cruz das Almas; e a "Dandara dos Palmares" (2023), na Praça da Mulher.
A maceioense além de artista é mãe, dona de casa e militante das causas raciais. A militância se expressa por meio da sua arte, com pinturas que aguçam o senso crítico e levantam questionamentos. Para ela, a arte em muros representa acalento aos olhos, mas também, grito e incômodo. “A arte em muros simboliza comunicação, grito ou incômodo. Por outro lado, pode significar beleza, acalento aos olhos e à alma, transformando e tocando quem vê”.
Geralmente as questões que a muralista traz em suas obras envolvem ancestralidade, mulheres negras, mães e sagrado feminino. “Em uma sociedade onde o machismo impera, uma mulher livre que, através da arte, mostra a beleza e a força do universo feminino faz muito barulho. Eu tenho orgulho disso”, explica Joyce.
Por fim, a artista destaca que a pintura em murais simula uma galeria a céu aberto, educando a população através da beleza ou do estranhamento. “Poucas são as pessoas que separam um tempo para ver, assistir ou contemplar arte. Então que ela esteja na rua ao alcance de todos”.

Joyce Nobre mistura sua arte com os temas sociais que defende (Foto: divulgação).

