
Desafios culturais em Maceió: artistas locais cobram mais investimento
Guerreiro - Foto: Wesley Menegari
Eduardo Lira
Na atmosfera de promessas e expectativas que cercam as campanhas eleitorais, os artistas alagoanos aguardam ansiosamente por uma gestão cultural que valorize e apoie o setor nos próximos quatro anos. Em um estado reconhecido como um dos mais ricos em diversidade cultural do Brasil, a classe artística alagoana expressa sua esperança por medidas concretas que possam impulsionar suas atividades, especialmente após os impactos e dificuldades trazidas pela pandemia.
No entanto, a realidade enfrentada pelos artistas de Maceió ainda é desafiadora, marcada pela falta de cumprimento de compromissos assumidos pela prefeitura, como o pagamento por serviços prestados durante eventos realizados no ano de 2022. Esta situação reflete não apenas uma questão financeira, mas também uma falha na execução das políticas culturais e no apoio aos artistas locais.
A demanda por transparência e efetividade nas políticas culturais é uma situação contínua entre os artistas alagoanos. A implementação de editais e a execução da Lei Estadual de Incentivo à Cultura são citadas como medidas essenciais, porém ainda distantes da realidade vivenciada pela classe artística, especialmente na cultura popular, onde muitos mestres e representantes tradicionais se vêem excluídos dos processos de seleção e financiamento.
O mestre de coco de roda, Jurandir Bozo, acredita que Alagoas está em dívida com a cultura e que há demandas antigas consideradas importantes para estruturar o setor. "A cultura popular é o segmento da arte que mais se encontra vulnerável dentro de Alagoas. A política de editais é muito positiva, mas na cultura popular isso tem se estreitado e deixado muitos mestres de fora, praticamente excluídos do processo".
De acordo com Jurandir, um exemplo disso é a Lei Aldir Blanc, que deveria ofertar 150 prêmios de 10 mil reais para os mestres; no entanto, os premiados não chegaram a 60, pois muitos não tiveram acesso ou conhecimento de como participar desses processos. Esse é um desafio da próxima gestão.
A burocracia excessiva nos processos de inscrição e a falta de clareza nos critérios de avaliação também são desafios enfrentados pelos artistas, seja na área de cultura tradicional ou em outras formas de expressão artística. A necessidade de mais investimento nos artistas locais e o combate à estigmatização do trabalho artístico como algo marginal são questões urgentes que clamam por uma resposta eficaz por parte das autoridades municipais.

Jurandir Bozo com a BIZUNGA, Instrumento usado no Coco de Roda
Foto: Alagoas 24 Horas
Falta de apoio ao teatro
A queixa da dificuldade dos editais também é da classe teatral. O ator Filipe Aragão, do grupo teatral Auá, tem percebido o aumento da reclamação da burocracia para realizar inscrições nos processos seletivos que muitas vezes possuem critérios desnecessários, confusos e informações fora de ordem.Ainda se recuperando dos impactos negativos da pandemia, os atores também anseiam por mais políticas públicas voltadas ao fazer teatral. Para Filipe, a falta de investimento nos artistas locais e a propagação da ideia de que “todo artista é vagabundo” dificulta a evolução do cenário cultural de Alagoas. “Tem muito artista que rala noite e dia para conseguir o seu pão no dia seguinte. E é triste quando ele é desmerecido por quem não acredita que a arte pode quebrar fronteiras e trazer a revolução.

Filipe Aragão - Ator - Foto: Acervo Pessoal
Esperamos que mais leis e editais sejam publicados, mais apoio e auxílio sejam dados, que as políticas sejam voltadas para o acompanhamento do artista iniciante”, anseia.
“Também seria interessante se fosse criado um fundo de recursos apenas para os artistas alagoanos. É cansativo ficar explicando o quão necessário é assistir a um filme, um espetáculo de teatro, de dança. A sociedade também tem que fazer a parte dela de entender que o artista é um profissional do artesanato humano. É ele que reflete sobre o mundo, suas inquietações e ideias, e é a partir do assistir, do ir a um espaço cultural, que se produz catarse, um tipo de transformação, matéria para compor sentido ao mundo. Arte dá cor a esse mundo cinza”, ressaltou o ator.
Além disso, a falta de diálogo entre os gestores públicos e os profissionais da cultura é apontada como um obstáculo significativo para o desenvolvimento do setor. A ausência de representação e de iniciativas que contemplem as demandas das comunidades periféricas e afrodescendentes agrava ainda mais a desigualdade no acesso aos recursos e às oportunidades culturais.
Atenção para a periferia
Para o músico e militante Igbonan Rocha, é preciso que os próximos gestores lutem também pelas demandas do povo preto e os profissionais da cultura periférica, instituindo ações permanentes, que incentivem, promovam e sistematizem projetos nas próprias comunidades. Como também, projetos culturais que sejam estratégias para a promoção da educação nos seus diversos segmentos poderiam fazer parte de um plano de gestão, defende Igbonan.
“Eu sinto falta, tanto no legislativo estadual quanto no federal, de representantes afro-brasileiros, que lutem pelas demandas do nosso povo no que tange à cultura, religião, assistência social e muitas outras necessidades que só nosso povo entende e necessita. Como escreveu Caetano Veloso: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, reflete.
Diante desse cenário desafiador, os artistas alagoanos se mobilizam em busca de soluções concretas para os problemas enfrentados. A recente audiência pública na Câmara Municipal de Maceió foi um exemplo dessa mobilização, onde representantes do setor cultural denunciaram o descaso da prefeitura com importantes estruturas e políticas destinadas à promoção da cultura local.
É evidente que a cultura alagoana enfrenta inúmeros obstáculos em seu caminho para o reconhecimento e valorização merecidos. No entanto, a determinação e a união dos artistas locais demonstram que a luta por uma gestão cultural mais justa e eficiente está longe de acabar.

