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Literatura de Cordel: Entre Versos e Reflexões 

 Árvore feita de folhetos de cordel na Bienal de 2022. Foto: Mitchel Leonardo/ Ascom Bienal

Treicy Lima 

O termo "Cordel", de herança portuguesa, encontrou o solo brasileiro no final do século XVIII. Com a ascensão do rádio e da televisão, sua existência foi ameaçada, mas a resiliência da manifestação artística resistiu às adversidades, mantendo-se firme em estados como Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Pará, Rio Grande do Norte e Ceará. No Brasil, o século XX viu o florescer do cordel, especialmente entre as décadas de 1930 e 1960. Escritores renomados, como João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Guimarães Rosa, foram profundamente influenciados por essa forma única de expressão, impulsionando o cordel para o cenário literário nacional.

 

Originária do nordeste brasileiro, a literatura de cordel ultrapassa as fronteiras geográficas, tornando-se um veículo poderoso para abordar questões sociais de forma acessível e envolvente. Os folhetos não são meramente poesia escrita; eles são "cápsulas" do folclore, tradições e lendas de uma região. Ao narrar histórias baseadas em experiências locais, eles mantêm viva a rica tapeçaria cultural do Nordeste, preservando tradições para as gerações futuras.

 

Uma das figuras mais famosas dos contos populares é João Grilo, que ganhou notoriedade na literatura brasileira através do cordel e, como um astuto anti-herói, ressurgiu na obra Auto da Compadecida, escrita por Ariano Suassuna em 1957. Sua fama se ampliou ainda mais devido à adaptação cinematográfica da peça, dirigida por Guel Arraes. Isso evidencia o alcance significativo dessa manifestação cultural. Também conhecida como poesia popular, o cordel aborda uma variedade de temas: ganância, astúcias, narrativas com animais, aventuras, tragédias, jornadas fantásticas, relatos históricos, questões sociais, entre outros que fazem parte desse universo popular. Desta forma, reflete a história do povo e atrai um público mais amplo de ouvintes e leitores. Os cordéis, em sua maioria, têm origem nas reflexões dos próprios autores sobre sua realidade social imediata.

 

É através do conhecimento ou da crítica ao seu próprio contexto social que o escritor estabelece sua identidade popular e alcança uma parte do público que se identifica com sua produção. Isso ocorre porque seus escritos geralmente abordam aspectos comuns da vida social, despertando a identificação de muitos leitores. Dos amores proibidos aos desafios políticos, o cordel não tem medo de confrontar tabus. Com uma pitada de sarcasmo e uma dose saudável de criatividade, os cordelistas conseguem desarmar até mesmo os corações mais fechados e as mentes mais resistentes.

 

Como um ramo da literatura popular, a literatura de cordel também se caracteriza pela utilização de linguagem simples, uma vez que se baseia na memorização e na preservação das tradições orais e da forma poética, o que possibilita a inclusão de todo um grupo de pessoas que não têm domínio da escrita.

 

Vale ressaltar que a manifestação artística foi destaque na 10ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, sendo fundamental para a apreciação da cultura nordestina e dos escritores alagoanos. A participação dos folhetos no evento permitiu que os cordelistas ativos dentro do estado oferecessem ao público da Bienal a oportunidade de se maravilhar com os poemas e explorar as diversas épocas da literatura de cordel de Alagoas.

Conheça a jornada do “poeta matuto”

Em conversa com o cordelista Jorge Calheiros, expositor desde a primeira edição da Bienal em Alagoas, declarado patrimônio vivo do estado desde 2011 - que gosta de se intitular de “poeta matuto”, e escreve há mais de 70 anos - fica evidente o quanto o cordel é essencial e enquanto manifestação artística detém um papel social de suma importância. 

 

O poeta, nascido em Pilar, comenta que nunca frequentou a escola, pois trabalhava com seu pai desde criança, mas isso não foi um empecilho para que Jorge se tornasse um dos cordelistas mais respeitados. Ao passar por muitas dificuldades na vida, o poeta encontrou na literatura de cordel uma forma de expressar suas experiências pessoais permeadas pela desigualdade social.

Quando questionado sobre sua inspiração, o cordelista afirma que se atrai por temas que afetam o cotidiano das pessoas ao seu redor, “eu gosto de escrever sobre o preço do feijão, sobre o que o presidente falou no jornal mais cedo, pessoas ou acontecimento, tudo que eu vejo, me dá ideia  para conseguir fazer o cordel”, comenta o artista.

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Jorge Calheiros durante exposição na Bienal de 2022 (Foto: Aline Lima)

A literatura de cordel não é apenas uma forma de entretenimento ou uma expressão artística, é uma cultura subversiva que desafia as normas estabelecidas e dá voz aos marginalizados. Ao abordar questões sociais de forma criativa e acessível, como Jorge Calheiros, os cordelistas promovem a conscientização e o questionamento, estimulando uma reflexão crítica sobre as realidades sociais. Personagens como João Grilo se tornam ícones dessa cultura, representando a astúcia e a resistência do povo. Dessa forma, a arte não só preserva as tradições culturais, mas também serve como um catalisador de mudanças, ampliando os horizontes daqueles que se envolvem com ela. 

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Produto Editorial, desenvolvido na disciplina Oficina de Edição de Mídia Impressa e Digital

Universidade Federal de Alagoas

Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes

Curso de Jornalismo

Maceió, 2024

Jornalista responsável: Vitor Braga (MTE 1009-AL)

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